cover
Tocando Agora:

Entenda por que espécie de árvore considerada tóxica para abelhas pode ser proibida em Piracicaba

Espatódea em Piracicaba Yasmin Moscoski/g1 A Câmara Municipal de Piracicaba (SP) aprovou um Projeto de Lei (PL), em primeira discussão, que proíbe o plantio...

Entenda por que espécie de árvore considerada tóxica para abelhas pode ser proibida em Piracicaba
Entenda por que espécie de árvore considerada tóxica para abelhas pode ser proibida em Piracicaba (Foto: Reprodução)

Espatódea em Piracicaba Yasmin Moscoski/g1 A Câmara Municipal de Piracicaba (SP) aprovou um Projeto de Lei (PL), em primeira discussão, que proíbe o plantio e a produção da árvore exótica espatódea (Spathodea campanulata) e permite o corte das que já estão em pé, desde que haja a reposição por outra nativa. Na justificativa do projeto, o vereador Zezinho Pereira (União Brasil) focou nos impactos ambientais negativos causados pela espécie à fauna local, como abelhas e beija-flores, intoxicados pelos compostos presentes nas flores da árvore. No entanto, o projeto recebeu argumentos contrários, como o de Silvia Morales (PV), que afirmou falta de evidências científicas definitivas sobre os impactos negativos e focou nos benefícios ambientais presentes nas árvores que já existem, como sombra, abrigo para animais, regulação da temperatura local e proteção do solo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Piracicaba no WhatsApp Para virar lei, o PL ainda precisa ser aprovado em segunda discussão e sancionado pelo prefeito Helinho Zanatta (PSD). Para entender se existe risco para as abelhas e quais as formas de manejo, o g1 ouviu uma professora do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), e um engenheiro floresta. A espatódea faz mal para as abelhas? Espatódea Ananda Porto/TG Segundo a professora doutora do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq/USP, Denise Alves, sim. O efeito é comparável ao de inseticidas domésticos. “Tem um número considerável de estudos mostrando que o néctar da espatódea é sim tóxico para as abelhas e não só para as abelhas, mas para outros insetos”, diz a especialista. Isso ocorre porque a espatódea é uma espécie do continente africano e a fauna brasileira não evoluiu com a espécie a ponto de não ser afetada. A especialista destacou que existem 2 mil espécies de abelhas nativas, sendo que a maioria é do tipo solitária, grupo considerado mais vulnerável. “Essas abelhas solitárias não formam colmeias, colônias populosas. Elas vivem sozinhas. Se ela morre na flor [da espatódea], isso compromete a população dessas espécies”, explica. Denise defendeu a substituição gradativa das espatódeas por árvores nativas, considerada mais segura para os polinizadores, e afirmou que a cidade tem que pensar soluções que deixem o ambiente urbano mais amigável para as abelhas, dado que as pequenas são os principais agentes polinizadores da Terra e responsáveis pela reprodução de plantas, produção de alimentos e o equilíbrio ecológico. Outros riscos Calçada com flores da espatódea em Piracicaba Yasmin Moscoski/g1 A substituição gradativa, como deixar de plantar espécies do tipo, também é defendida pelo engenheiro florestal Germano Chagas, coordenador técnico do projeto de reflorestamento Corredor Caipira. Ele reconhece os riscos biológicos da espatódea, mas pondera que, em escala macro, o impacto da árvore sobre as populações de polinizadores é pequeno diante do uso intensivo de agrotóxicos nas culturas agrícolas vizinhas (como a cana-de-açúcar, predominante em Piracicaba). Ele alerta para os prejuízos ambientais da remoção de árvores adultas, como a perda de sombra, aumento do calor urbano e redução da fixação de carbono, e sugere que o foco das políticas públicas deveria ser também o reflorestamento e o controle de agrotóxicos. “Outro aspecto muito relevante, especialmente no município de Piracicaba, são os remanescentes de vegetação nativa, onde esses polinizadores poderiam se abrigar, se multiplicar e viver. A gente está questionando a situação dos polinizadores no centro urbano, mas muitas vezes não olha para os polinizadores no meio rural", afirma o engenheiro florestal. "Um estudo do corredor Caipira mostra que Piracicaba tem apenas 9% de vegetação nativa no município. Seria importante termos, no mínimo, 20% para garantir a conectividade entre os fragmentos florestais, permitindo que o fluxo gênico aconteça e que esses polinizadores possam ir de um fragmento para outro, porque muitas vezes eles não conseguem atravessar um canavial”, completa. Além dos agrotóxicos, Denise afirma que até a pulverização contra a dengue no próprio meio urbano pode contaminar e matar as abelhas. Discussão em outras cidades Indústria da cana-de-açúcar Reprodução/TV Globo A discussão em torno da espatódea não é exclusiva de Piracicaba. Diversos municípios e estados brasileiros já aprovaram leis semelhantes, como Santa Catarina, Espírito Santo e Paraná, com o intuito de preservar o ambiente para a fauna local. Árvore tóxica e letal para abelhas faz SC determinar multa de R$ 1 mil e remoção de espécie exótica Agora no g1 VÍDEOS: Tudo sobre Piracicaba e região Veja mais notícias da região no g1 Piracicaba