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Doula da morte: terapeuta de SP acolhe pessoas em luto com funeral simbólico e retiros de finitude para romper tabus

Funeral simbólico e retiro de finitude: entenda o que faz doula da morte de Piracicaba, SP De clichês populares a reflexões centrais da filosofia, a morte co...

Doula da morte: terapeuta de SP acolhe pessoas em luto com funeral simbólico e retiros de finitude para romper tabus
Doula da morte: terapeuta de SP acolhe pessoas em luto com funeral simbólico e retiros de finitude para romper tabus (Foto: Reprodução)

Funeral simbólico e retiro de finitude: entenda o que faz doula da morte de Piracicaba, SP De clichês populares a reflexões centrais da filosofia, a morte costuma ser encarada como a única certeza da vida, desde a antiguidade com Platão até a era contemporânea de pensadores como Heidegger e Bauman. Enquanto falar de finitude ou se preparar para o fim da vida ainda é tabu mesmo por quem enfrenta o luto, uma prática começa a ganhar espaço: a doulagem da morte. Em Piracicaba (SP), a professora de ioga e terapeuta integral, Silvia Onofre, decidiu se capacitar para a função de doula da morte e de fim da vida após perder o pai, vítima de câncer, e o cunhado de 36 anos, por um Acidente Vascular Cerebral (AVC), num intervalo de cinco meses em 2017. Atualmente, ela realiza retiros de finitude como caminho para o bem-viver, grupos voluntários de apoio ao luto, e funeral simbólico. Silvia Onofre atua como doula da morte em Piracicaba, no interior de São Paulo Reprodução/Arquivo pessoal Mas, o que faz uma doula da morte? Ela acompanha pessoas e famílias diante da finitude, do processo de morrer e do luto, oferecendo presença, escuta, apoio emocional e cuidado. Um ponto importante é que o trabalho das doulas da morte não substitui, em nenhuma medida, o atendimento clínico de médicos, enfermeiros e demais profissionais especializados em cuidados paliativos. É complementar a ele. No Brasil existem alguns cursos livres para a formação em doulas da morte. Eles abordam, entre outros temas, mitos sobre a finitude, escuta e diretivas antecipadas de vontade e luto. Silvia Onofre é doula da morte em Piracicaba Arquivo pessoal/Silvia Onofre A doulagem da morte (ou doulagem de fim de vida) ainda não é regulamentada no Brasil, diferente da função tradicional de doula, voltada à gestação e ao parto, prevista na Lei Federal nº 15.381/2026. 'A morte faz parte da vida' Após vivenciar duas perdas na família, Silvia Onofre passou a estruturar a carreira com foco no acolhimento e na reflexão sobre o fim da vida. “A morte faz parte da vida. E falar sobre ela não precisa ser um assunto sombrio”, afirma Silvia em uma de suas postagens nas redes sociais em que apresenta a prática de doula da morte. Antes de se tornar uma doula da morte, Silvia atuou por mais de dez anos no setor corporativo, em administração escolar. "Fiz transição de carreira desde a morte do meu pai e do meu cunhado em 2017. Encontrei as doulas da morte na época, mas não estava em momento propício para iniciar a preparação na época. Em 2025, fiz a formação. Desde então, meu trabalho é voltado para a finitude, com educação para a vida e para a morte", relata. 📲 Siga o g1 Piracicaba no Instagram Além da preparação individual, o trabalho inclui atividades em grupo voltadas para a reflexão sobre o tema. "Ofereço vivências da finitude como um caminho para o bem viver, em que direciono o olhar a nossa finitude para ver como estamos vivendo hoje. A primeira edição do 'Retiro Finitude' foi em março deste ano. Abordei mortes simbólicas, como o término de um relacionamento, uma mudança de emprego ou uma aposentadoria, por exemplo. O segundo retiro será em abril de 2027, com o tema 'Viver é uma Escolha', focado na morte física", explica. Silvia detalha como funciona a doulagem da morte diante da finitude física. "A doula da morte é aquela que facilita o espaço para o morrer. Assim, como temos a doula de nascimento, que prepara todo o espaço para o ser vir ao mundo, a doula da morte facilita essa despedida do corpo físico. Ao descobrir uma doença e que vai entrar numa terminalidade, a pessoa pode fazer o preparo para a morte", afirma. O planejamento do paciente pode envolver questões práticas, desde a organização do velório até documentos formais e legados pessoais. Jazigo com homenagens durante o Dia de Finados, em Piracicaba Edijan Del Santo/ EPTV A assistência também é voltada para a rede de apoio e familiares envolvidos no processo de perda. "A pessoa pode escolher o caixão em que quer ser enterrada, a maquiagem, a pintura na unha e deixar diretrizes antecipadas de vontade preparadas. A doula não faz essa mediação com a família", descreveu. "Ao descobrir que tem uma doença ameaçadora de vida, com pouco tempo, a pessoa também pode escolher por um tratamento tradicional ou cuidado paliativo com acompanhamento médico profissional, que vai tratar o ser humano de forma integral, visando o conforto e não somente o prolongamento da vida. A doula, junto com a equipe médica, pode ajudar na mediação entre os profissionais da saúde, a família e doente", detalhou. A terapeuta pontua que também é possível trabalhar legados, como escrever cartas ao ente querido e deixá-las com a doula para entrega no pós-morte. A pessoa também pode escolher uma cerimônia no funeral ou alguma música que toque durante o velório, exemplificou. "Trabalho o atendimento do luto, tanto o luto antecipatório quanto o acolhimento do luto no pós-morte para a família, e também faço o atendimento dos lutos das mortes simbólicas. Esse atendimento de luto é feito por sessões. Além da escuta ativa, trabalho toques, massagens, aromaterapia e algumas posturas de ioga", diz. Entre os casos atendidos, a terapeuta destaca o uso de rituais para elaborar sentimentos pendentes. "Trabalho também com rituais”, especificou. Leia também Doulas do fim da vida: o trabalho de quem acompanha a morte Nicole Kidman diz que quer se tornar ‘doula da morte’ após perda da mãe Como organizar a morte da minha mãe me fez virar doula do fim de vida RS terá 1ª certificação acadêmica da América Latina em ‘doulas da morte’ Número de doulas do fim de vida cresce no exterior Atendimentos  Silvia realiza atendimentos particulares, retiros, e também coordena voluntariamente um grupo de apoio ao luto, com cerca de 20 membros, que se encontram mensalmente. Dezenas de pessoas frequentam as vivências em grupo sobre finitude. “Já participaram média de 35 pessoas”, contou. Luto após demissão A professora Rafaela Pereira Santos, de 38 anos, foi uma das pessoas atendidas pela doula da morte em Piracicaba (SP). Silvia fez o acolhimento de luto após a demissão inesperada de Rafaela da escola em que trabalhava. Para Rafaela, que já frequentava as aulas de ioga ministradas por Silvia, a participação no retiro sobre finitude em março de 2026, e o suporte posterior, a ajudaram a ressignificar o encerramento do ciclo profissional e a reorganizar planos pessoais. "Foram três dias de encontro pessoal e reconexão comigo mesma, um despertar para a vida e para o que eu precisava fazer por mim. Logo em abril, passei por uma dispensa no trabalho e fiquei muito chateada, porque não esperava. A experiência no retiro fortaleceu o olhar meu olhar sobre mim, de ver o que precisava e me deu um norte para seguir uma nova fase", conta Rafaela. Velório simbólico A aliança terapêutica evoluiu para o tratamento de uma ferida antiga: a morte do primeiro filho, Lourenço, ocorrida 11 anos antes em decorrência de complicações provocadas por um pico de pressão arterial no final da gestação. Com a mãe impossibilitada de acompanhar o velório e o sepultamento devido ao período de internação hospitalar, a doula propôs a realização de uma cerimônia de despedida simbólica para elaborar a dor reprimida. "Na minha primeira gravidez, tive complicações no final, com 32 semanas. Tive eclâmpsia e acabei perdendo meu bebê. Não pude velar o corpinho do Lourenço, não pude enterrar. A Silvia me sugeriu fazer um velório simbólico. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, porque, apesar de ter passado todos esses anos, sempre fica uma feridinha aberta. Ficou um momento que eu precisava ter, porque na época eu não pude; fiquei internada por três dias no hospital", relembra. Perdas emocionais acumuladas A experiência permitiu vivenciar o luto de forma adaptada e compreender a abrangência da doulagem, que atua tanto nos momentos de terminalidade física quanto nos processos de encerramento de ciclos e perdas emocionais acumuladas ao longo dos anos. "Esse trabalho que a Silvia faz é como se você se quisesse dar a oportunidade de viver o luto, mas de uma maneira diferente, com um olhar diferente. A princípio, a gente fica meio receosa em ouvir 'doula da morte'. Mas, depois você compreende que não é só a morte física, mas a morte simbólica, o luto vivenciado de uma separação ou o luto de ter vivido uma saída de um trabalho", comparou. Com a experiência vivida e a partilha do ensinamento de Silvia, a professora também ressignificou o modo como enxerga a dor do outro. "Hoje, também consigo olhar para outras pessoas que precisam desse acompanhamento", conclui. Kelvin Jones, de 26 anos, perdeu a mãe, Íris, vítima de um câncer raro em Piracicaba (SP) Kelvin Jones/Arquivo pessoal Suporte para enfrentar a ausência O barbeiro Kelvin Jones, de 26 anos, buscou o acolhimento dois meses após a morte da mãe, Íris, vítima de um câncer raro na cabeça. Vivenciando a dor da perda recente, ele encontrou no atendimento o suporte necessário para enfrentar a ausência. "Conheci a Silvia através de um amigo. Fazia dois meses que eu tinha perdido minha mãe de câncer. Eu estava muito perdido, que sempre era eu e minha mãe, entendeu? Tudo na vida", desabafa Kelvin. Dor física no luto Além da escuta, o processo utiliza técnicas corporais para aliviar as dores físicas causadas pelo luto e orientações para lidar com os pertences deixados. "A gente às vezes tem muita dor no corpo, o luto traz isso também. Até faz um tipo de uma massagem específica para liberar toda aquela retração. É bem interessante tudo o conhecimento que ela passa e isso alivia a nossa alma", afirma. O acompanhamento tem auxiliado o jovem a reorganizar a rotina e a processar o impacto da separação de forma mais leve. "Ela ensina a gente a, de alguma forma, a conseguir fazer ser mais fácil. Não está sendo fácil. Mas, está me ajudando. Foi recente. Há altos e baixos, mas me ajudou muito", finaliza.s Kelvin, ainda criança, ao lado da mãe, Íris, em foto antiga que morador de Piracicaba (SP) guarda de lembrança Kelvin Jones/Arquivo pessoal Visão médica: dignidade e legado no fim da vida O suporte profissional no processo de finitude é visto pela medicina como um complemento aos cuidados com a saúde mental. O psiquiatra Arthur Cardoso destaca que a ausência de diálogo sobre o tema torna o luto mais doloroso. "Ainda existe muito tabu na nossa cultura sobre a morte. No caso de doenças terminais, esse processo de luto pode passar de forma desconfortável, com foco na doença, e não precisa ser dessa forma", avalia o médico. Para o especialista, o acompanhamento adequado ajuda a preservar a história do paciente e evita complicações emocionais nos familiares. "Ter um profissional para auxiliar a pessoa a morrer com dignidade, respeitando o legado dela, vem somar aos cuidados. Quando esse processo tem problemas, pode levar a desdobramentos para a família, desde sentimentos de culpa até a sensação de que não houve dignidade", explica Cardoso. Idoso com cão deitado em sua cama: cuidados paliativos compreendem tudo o que pode ser oferecido a quem tenha uma doença fora de possibilidade de cura By Jiří Dušek - Own work, CC BY-SA 4.0 O médico de Família e Comunidade, Lucas Fernando Zorzetto, com trajetória em Unidades Básicas do Sistema Único de Saúde (SUS) no interior de São Paulo, ressalta a eficiência do trabalho do corpo clínico profissional dedicado aos cuidados paliativos e pondera, em certa medida, a necessidade da prática de doulagem diante da atuação sólida de psicólogos e demais voluntários. "As equipes de cuidados paliativos são multiprofissionais e interdisciplinares, sendo compostas por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos que atuam em conjunto, além de voluntários como religiosos que oferecem suporte espiritual, avalia o especialista ao citar o Manual de Cuidados Paliativos da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) e nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). "O objetivo central desse grupo é garantir o alívio da dor e de sintomas físicos, além de oferecer suporte emocional, social e espiritual integral tanto para o paciente com doença grave quanto para a sua família", completou. Serviço de cuidados paliativos do Hospital das Clínicas da Unicamp, em Campinas Reprodução/EPTV VÍDEOS: tudo sobre Piracicaba e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Piracicaba